A síndrome do intestino irritável (SII) é uma condição digestiva complexa e muito comum, que interfere na vida de muita gente. Os sintomas variam e incluem dor abdominal, gases, inchaço, náuseas, constipação ou diarreia. A SII é um distúrbio funcional: o intestino não tem lesões visíveis, mas funciona de forma sensível. O cuidado combina alimentação, hábitos e atenção à saúde emocional.
Em resumo
- A SII é um distúrbio da interação entre cérebro e intestino. É real, não é “coisa da cabeça”, e tem tratamento.
- Existem subtipos: com constipação (SII-C), com diarreia (SII-D) e misto (SII-M). O cuidado muda conforme o tipo.
- A dieta não cura a SII, mas pode aliviar muito os sintomas. A dieta FODMAP é uma das estratégias, e é feita por etapas.
- Estresse, sono e movimento fazem parte do tratamento, e não apenas o prato.
01
O que é a SII e como se reconhece
A SII é diagnosticada pela história clínica e pela exclusão de outras causas. Pelos critérios de Roma IV, há dor abdominal recorrente, em média pelo menos um dia por semana nos últimos 3 meses, relacionada a duas ou mais destas situações: ao evacuar, a uma mudança na frequência das evacuações ou a uma mudança no formato das fezes. Os sintomas devem ter começado pelo menos 6 meses antes.
SII-C (constipação)
Predominam as fezes duras e ressecadas (tipos 1 e 2 da Escala de Bristol), com esforço e sensação de evacuação incompleta.
SII-D (diarreia)
Predominam as fezes amolecidas ou líquidas (tipos 6 e 7), com urgência e evacuações frequentes.
SII-M (mista)
Alterna períodos de constipação e de diarreia.
Antes de concluir que se trata de SII, o médico precisa descartar outras causas, como doença celíaca, doença inflamatória intestinal, SIBO, intolerâncias e alterações da tireoide. Não faça o diagnóstico por conta própria.
02
O que pode estar por trás
A SII tem origem multifatorial, e a causa varia de pessoa para pessoa. Entre os fatores estudados:
- Sensibilidade visceral: o intestino reage com dor e desconforto a estímulos que normalmente não incomodariam.
- Alterações na motilidade, ou seja, no ritmo dos movimentos do intestino.
- Conexão entre cérebro e intestino: estresse, ansiedade e depressão influenciam os sintomas, e os sintomas influenciam o humor.
- Infecções intestinais prévias, que podem deixar o intestino mais sensível (SII pós-infecciosa).
- Alterações da microbiota, da permeabilidade intestinal, da inflamação de baixo grau e dos ácidos biliares.
- Fatores genéticos e histórico familiar, que podem influenciar a inflamação, a sensibilidade e a função intestinal.
- Eventos adversos, como traumas na infância, situações de estresse físico ou psicológico e relações abusivas.
Algumas características, como perfeccionismo e autocobrança, podem estar associadas a mais sintomas, mas isso não significa que a SII seja uma questão de personalidade nem que a pessoa seja culpada. O que sentimos influencia o intestino, e o intestino influencia o que sentimos.
03
Gatilhos que valem a pena observar
A dieta não provoca a SII e não a cura, mas alguns hábitos podem agravar os sintomas. Observe, com um diário, se algum deles faz diferença para você:
- Muitos açúcares simples e bebidas adoçadas.
- Desidratação.
- Laticínios, em quem tem alergia ao leite ou intolerância à lactose.
- Excesso de fibras de uma vez, principalmente as insolúveis, como o farelo de trigo.
- Grandes quantidades de gordura e alimentos gordurosos.
- Cafeína em excesso e álcool.
- Adoçantes artificiais e polióis, como sorbitol e xilitol.
- Suplementos não indicados, como bicarbonato e citrato de sódio.
- Carboidratos fermentáveis (FODMAPs), principalmente nas crises.
- Comer muito rápido, pular refeições ou comer em momentos de estresse.
04
A dieta FODMAP, por etapas
FODMAPs são carboidratos fermentáveis (como os do alho, da cebola, do trigo, do mel e da maçã) que algumas pessoas absorvem mal. Eles chegam ao intestino grosso e são fermentados pelas bactérias, produzindo gases e desconforto. A dieta é feita em três fases, com acompanhamento:
Fase 1: eliminação temporária
Reduz os alimentos ricos em FODMAPs por algumas semanas, para ver se há alívio dos sintomas.
Fase 2: reintrodução
Reintroduz os grupos de FODMAPs de forma gradual e individual, para identificar os alimentos-gatilho.
Fase 3: personalização
Reincorpora todos os alimentos bem tolerados, respeitando as necessidades nutricionais, e limita só o que realmente incomoda.
A dieta não deve ser feita por tempo indeterminado e não deve ser iniciada sem orientação. O guia “Dieta FODMAP: a dieta antifermentativa” explica cada fase com mais detalhes.
05
Fibras, óleo de hortelã e outras opções
Fibras solúveis e o psyllium
Em pessoas com constipação, as fibras solúveis, como o psyllium, são as mais indicadas. Aumente aos poucos, tome com bastante líquido e observe a tolerância. As fibras insolúveis, como o farelo de trigo, podem piorar o inchaço.
Óleo de hortelã-pimenta
Estudos indicam que cápsulas de óleo de hortelã-pimenta com revestimento entérico podem aliviar a dor e o desconforto abdominal. Não é o mesmo que o chá de hortelã, e pode piorar o refluxo e a azia. Converse com o profissional antes de usar.
Probióticos
Os resultados variam conforme a cepa e o produto, e nem todos ajudam. Podem ser testados por um período definido, com avaliação da resposta.
Medicamentos
Dependendo do subtipo e da intensidade, o médico pode indicar antiespasmódicos, medicamentos para constipação ou diarreia, doses baixas de neuromoduladores ou antibióticos específicos. Não os use sem avaliação.
06
Cuidar do cérebro e do intestino juntos
Como cérebro e intestino conversam o tempo todo, as estratégias não nutricionais fazem parte do tratamento, e não são um complemento menor:
Atividade física
Caminhadas e exercícios regulares ajudam o funcionamento intestinal e o humor.
Meditação, respiração e yoga
Reduzem a resposta ao estresse e podem aliviar a dor e o inchaço.
Psicoterapia
A terapia cognitivo-comportamental e a hipnoterapia dirigida ao intestino têm boa evidência na SII, principalmente quando os sintomas se relacionam com ansiedade e estresse.
Sono e rotina
Horários regulares de refeições e de sono ajudam o ritmo intestinal. Mastigue bem e faça as refeições com calma.
07
E quando predomina a constipação?
A constipação é um intestino mais preso. Nos últimos 3 meses, você teve dois ou mais destes sinais?
- Esforço para evacuar.
- Fezes do tipo 1 e 2 na Escala de Bristol.
- Sensação de evacuação incompleta.
- Necessidade de apoio para os pés ou posição de cócoras para evacuar.
- Menos de 3 evacuações espontâneas por semana.
Se sim, vale conversar com o profissional de saúde. O cuidado começa com hábitos: mais água, fibras aumentadas aos poucos, atividade física, manejo do estresse e respeito ao horário do intestino. Quando necessário, podem ser investigados fatores como a digestão, a inflamação intestinal, a microbiota e as deficiências de nutrientes. Não é necessário cortar farinhas e leite de todas as pessoas: as restrições devem seguir a tolerância individual. O guia “Constipação intestinal” traz mais detalhes.
Um cuidado feito para o seu intestino
Na consulta, avalio sintomas, exames, histórico e rotina para identificar o subtipo e os gatilhos, conduzir a dieta com segurança e integrar o cuidado emocional, em parceria com o seu médico.
Dra. Daniely Catharino TooleyNutricionista clínica, funcional e ortomolecular · CRN3/6794
Referências (5)+
- Lacy et al. ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome. Am J Gastroenterol, 2021.
- Lacy et al. Bowel Disorders (Rome IV). Gastroenterology, 2016.
- NICE. Irritable bowel syndrome in adults: diagnosis and management (CG61).
- Black et al. Effectiveness of a low FODMAP diet in IBS: systematic review and network meta-analysis. Gut, 2022.
- McKenzie et al. British Dietetic Association evidence-based guidelines for the dietary management of IBS in adults. J Hum Nutr Diet, 2016.
Conteúdo educativo para adultos. As orientações não substituem consulta, diagnóstico ou tratamento individual.